Depoimentos

Floresta Brasil foi criado como resultado de centenas de observações pessoais, de campo, realizadas durante mais de 6 anos nas áreas rurais do interior dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Como resultado dessas observações, Floresta Brasil dispõe hoje de uma coleção de mais de 100 (cem) depoimentos recolhidos ao longo desses anos, cujo teor evidencia as conseqüências visíveis do gradual processo de ressecamento do subsolo hoje em curso em extensas áreas de nosso país. E do crescente risco de escassez de água que estas áreas poderão ter de enfrentar, caso não sejam tomadas providências para a reversão do processo. A divulgação dos depoimentos é permitida desde que citada a fonte.

"Quando eu era menina, meu pai tinha uma fazenda em Itaparica. Tinha um
rio que cortava a fazenda, formava uma cachoeira e desaguava na baía.
Minha mãe não queria que eu atravessasse a laje sozinha. As crianças
passavam de mãos dadas, para não serem levadas pela correnteza. Ano
passado voltei lá para visitar. Deu pena. Agora, tem um fio de água que
não dá nem para ter girinos."

D. Candida
Niterói (RJ) - outubro 2003
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"Eu nasci e vivi em Vitória até os 18 anos. Eu tinha um tio que era
cacique político em Conceição da Barra, na fronteira com a Bahia. Ele
tinha um caminhão. Eu ia muito passar as férias lá: na época, era uma
viagem de 9 horas. Nós íamos atrás, na lona da carroceria do caminhão.
Eu me lembro perfeitamente que a estrada cortava a Floresta. Depois das 2h,
das 3h da tarde, ficava escuro. Eu fui vendo como tudo foi sendo
destruído. Hoje, com exceção das reservas de Linhares, o que resta são
resquícios. Matinhas em topos de morro."

Paulo Pedreira - 61 anos
Rio de Janeiro, dez 2004
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"O rio Claro passa perto da fazenda onde eu nasci, a umas 3 horas de
Goiânia: ele vai formar o Araguaia. O rio é claro mesmo, dá para ver os
peixes no fundo. Ele formava cachoeiras lindas. Hoje dá pena: as pedras
continuam lá, mas só um fio de água escorrendo."

Lourença da Silva
Rio de Janeiro - nov 2003
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"Quando eu era criança morava em Lavras (MG), em uma fazenda. Passava um
rio enorme atrás da fazenda. Usávamos um cipó para mergulhar no rio.
Agora, restou apenas um fio d água, nem dá para usar o cipó mais."

Prof.a Ana Alice Lázaro
Rio Bonito (RJ)  março 2004
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"Eu sou de Dores do Campo, perto de Barbacena. Quando eu era criança,
tinha lá a Cachoeira do Fubá. Tinha um tanque que um dia afundou um carro
de boi lá: caiu com a boiada e tudo. Afundou e morreu....

Hoje, não tem 20cm de córrego de água."

Rogério
Borda da Mata (MG) - 11 fev 2004
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"Minha cunhada nasceu em Tribobó. Casou e foi morar em um sítio perto de
Várzea das Moças. Mora lá fazem muitos anos... hoje tem até bisnetos. O
sítio é tão grande que os filhos e os netos moram todos lá, cada qual fez
seu cantinho. Fui lá em outubro de 2002 e aí soube que o poço secou. Um
dia... secou... Assim, sem mais nem menos... Ligava a bomba... e nada.
Aí tiveram que fazer outro poço e botaram cano toda vida. E o rapaz
procurou em vários lugares, e não achava. Disse que a qualquer momento
podia secar de novo. Aquela área... secou mesmo... "

D. Suely
Horto da UFRJ - out 2003