A
"carta" do cacique Seattle
Introdução: o cenário
histórico
A equipe de Floresta Brasil fez uma pesquisa sobre a história da
carta que o cacique Seattle teria mandado ao presidente norte-americano Franklin
Pierce,
em 1854, em resposta à proposta deste último de comprar terras que até então tinham pertencido
à sua tribo.
Antes de continuarmos, parece oportuno observar que a
palavra chief , da língua inglesa, tem como correspondente
na língua portuguêsa a palavra cacique . Assim,
se estivermos falando português, parece mais adequado nos referirmos
à personalidade que teria escrito a carta como cacique Seattle ,
e não "chefe Seattle".
Um outro aspecto que resultou de nosso estudo é que descobrimos, para nossa surpresa, que
é possível encontrar várias versões dessa
"carta". O que imediatamente traz a dúvida: Qual das versões seria a carta verdadeira? Pois bem, continuando
a pesquisa, descobrimos que muito provavelmente o cacique Seattle jamais escreveu carta alguma
com o conteúdo que lhe é atribuído, ao presidente Franklin Pierce.
O que terá acontecido então?
Pois bem: segundo as fontes que pesquisamos,
os índios Duwamish habitavam a região onde atualmente se encontra
o estado de Washington - no extremo Noroeste dos Estados Unidos, fazendo
divisa com o Canadá. E a famosa "carta" parece ter
sido, na verdade, um texto publicado em um jornal local baseado na
inspirada reflexão que o cacique Seattle fez para sua tribo,
reunida naquele deslumbrante cenário natural, sobre as relações do homem
com a Natureza, em resposta à proposta presidencial, de compra de terra,
trazida pessoalmente pelo recém-chegado
encarregado de assuntos indígenas do governo norte-americano.
O primeiro registro conhecido sobre a fala do cacique Seattle parece ser
um artigo publicado por um tal de Dr. Henry Smith, no Jornal Seattle Sunday Star,
em 1887. O Dr.Smith teria estado presente quando do pronunciamento
do Grande Cacique, tendo o texto do artigo se baseado nas anotações
que seu autor teria feito na ocasião do discurso.
Para uma melhor compreensão do discurso
em si um discurso cujo conteúdo e cujas palavras ainda
hoje, passado mais de um século, soam tão sábias
e profundas - resolvemos oferecer aos interessados no asunto 2 (dois)
textos:
- o primeiro texto traz a impressionante
descrição
que o Dr. Smith fez sobre o local onde o fato ocorreu, sobre a atitude
dos ouvintes - de profundo silencio e atenção e, mais
impressionante ainda, sobre a forte, solene e carismática personalidade
do orador e, finalmente, sobre
a forma com que a fala foi proferida. De fato, o cenário descrito
faz com que nos perguntemos se aquele não foi um daqueles raros
e mágicos momentos da história da humanidade em que um coração
forte, sensível e inspirado, consegue verbalizar palavras que chegam
fundo no coração de outros homens. Mesmo que estes outros
homens, como nós, tomem conhecimento daquelas palavras muitos e
muitos anos depois... confirmando o que disse Seattle: Minhas palavras são
como as estrelas, que não empalidecem.
- o segundo texto é o pronunciamento do cacique
propriamente dito. A versão que apresentamos é a tradução
de uma das mais famosas versões divulgadas durante a década
de 70. A foto do Grande Cacique Seattle (1787-1866) é de autoria
de E.M.Sammis: seu original encontra-se na Special Collection
da Universidade de Washington, sob o nº NA 1511.
Ambos os textos, do artigo do Dr. Henry A. Smithe
e do pronunciamento em si, foram obtidos, em inglês, no site http://www.geocities.com/RainForest/Andes/8032/page16/html,
ao qual somos gratos. Do mesmo site foi obtida a foto do cacique Seattle.
___________
Texto explicativo do Dr.Henry
Smith
O texto do artigo do Dr.Henry Smith, que se encontra logo abaixo, foi
traduzido pela equipe de Floresta Brasil diretamente do artigo original,
publicado em inglês em 1887, que se encontra na seção
em língua inglesa de nossa página (http://www.florestabrasil.org.br).
"O velho cacique Seattle
era o maior índio que eu jamais havia visto. E o que tinha aparência
mais nobre. Em seus mocassins, ele media mais de 1,80m, ombros largos, tórax
amplo e traços finos. Seus olhos eram grandes, inteligenes, espressivos
e amigáveis quando em repouso, e espelhavam fielmente os variados estados
de espírito da grande alma que olhava através deles. Normalmente
ele era solene, calado e digno, porém nas grandes ocasiões movia-se
na multidão como um Titã entre Liliputianos, e o que dissesse
era lei.
Quando se levantava para falar, em reuniões,
ou para oferecer conselho, todos os olhos se voltavam para ele, e então
frases profundas, sonoras e eloqüentes fluiam de seus lábios
assim como trovões de cataratas fluindo continuamente de fontes
inexauríveis. Suas diretrizes soavam tão nobres como teriam
soado aquelas do mais cultivado chefe militar que estivesse no comando
das forças de todo o continente. Nem sua eloqüencia, nem sua
dignidade ou sua graça haviam sido adquiridas. Elas eram tão
próprias da sua personalidade quanto as folhas e as flores o são
em um pessegueiro em flor.
Sua influência era maravilhosa. Ele poderia ter sido um imperador,
mas todos os seus instintos eram democraticos, e ele comandava os seus
leais cidadãos com suavidade e com paternal benignidade.
Ele sempre era alvo de especial atenção pelo homem branco,
principalmente quando sentado à sua mesa. Era nessas ocasiões
que ele demostrava, mais do que em qualquer outro lugar, o cavalheirismo
que lhe era genuíno.
Assim que o Governador Stevens chegou em Seattle e disse aos natives que
que tinha sido indicado com comissário para assuntos indígenas
para o território de Washington, eestes lhe prepararam recepção
frente dos escritórios do Dr. Maynard's, na margem próxima
da Rua Principal - Main Street. A baía enxameava de canoas enquanto
a margem esta tomada por uma morena e movimentada massa humana. Quando
o timbre de trombeta da voz do velho cacique espalhou-se sobre a imensa
multidão como o rufar de um tambor, formou-se um silêncio
tão instantaneo e perfeito como aquele que segue o crack do trovão
em um céu limpo.
Sendo então apresentado à multidão nativa pelo Dr.
Maynard, em um tom conversacional, direto e objetivo, o Governador deu
imediatamente início a uma explanação sobre sua missão,
que é conhecida demais para que requeira recapitulação.
Quando ele se sentou, o cacique Seattle levantou-se com a dignidade de
um senadorque carrega em seus ombros a responsabilidade sobre uma grande
nação.
Colocando uma mão sobre a cabeça do Governador, e lentamente
apontando para o céu com o dedo indicador da outra, em tom solene
e impressionante, começou seu memorável pronunciamento.
Fonte
"Trechos de um diário: O Cacique Seattle Um cavalheiro por instinto"
10º artigo da série Primeiras Reminiscências
-
Seattle Sunday Star, 29 de outubro de 1887 (tradução livre, pela
equipe de Floresta Brasil)
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O pronunciamento do cacique Seattle
(depois que o encarregado de negócios indígenas do governo
norte-americano deu a entender que desejava adquirir as terras
de sua tribo Duwamish).
O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar
a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade
e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos
que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não
o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa
terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle
diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar
na alteração das estações do ano.
Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia
nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do
resplendor da água, como então podes comprá-los?
Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha
reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina
na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados
nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva
que circula nas árvores carrega consigo as recordações
do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai
vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa
terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da
terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são
nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são
nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor
que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertecem à
mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar
nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer
que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver
confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus
filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra.
Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós
sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é
apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos
a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás
de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral
na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações
da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de
meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede.
Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos
nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os
rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar
aos rios a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver.
Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é
um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que
necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga,
e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos
de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos
de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de
seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata
sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas
que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga
cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás
apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades
causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim
por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco.
Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem
na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por
ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar
os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir
a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos
em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio
prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma
lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do
meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas
respiram em comum - os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo
em prolongada agonia, ele é insensivel ao ar fétido. Mas
se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é
precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda
a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro
sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se
te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita
santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa
ir saborear o vento, adoçado com a fragância das flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos
aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar
os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho
visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo
homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou
um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro
possa ser mais importante do que o bisão que (nós - os índios
) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem,
o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque
tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está
relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés
são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito
ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são
as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado
aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a
terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem
sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o
homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas
estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo
está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os
filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele
é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama,
a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros
sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em
ócio, envenenando seu corpo com alimentos adoçicados e bebidas
ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos
últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas
horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que
viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos
bosques, sobrará, para chorar sobre os túmulos de um povo
que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o
nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para
amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos,
apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha,
talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues,
agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra;
mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é
igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra
é querida por ele, e causar dano à terra é cumular
de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar;
talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo
a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios
desejos.
Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados,
pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum
desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e
sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério,
pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões
forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas
carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada
por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá
acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará
dar adeus à andorinha e à caça; será o fim
da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha
o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite
a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do
futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos
para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos
do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos,
temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será
para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos
viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último
homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar
da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo
continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós
a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração
de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos.
Proteje-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças
de como era esta terra quando dela tomaste posse: E com toda a tua força
o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus
filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso
Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo
o homem branco pode evitar o nosso destino comum.
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